Sindicatos pressionam por aumento acima da inflação

Fonte:CLAUDIA ROLLI FÁTIMA FERNANDES da Folha de
S.Paulo

A recuperação da economia se transformou em argumento de pressão dos
trabalhadores para conseguir reajustes de salários com ganhos reais (acima da
inflação) neste semestre.

A atuação dos sindicatos em 2008, principalmente entre setembro e dezembro,
quando o país sentiu de forma mais intensa os efeitos da crise, foi para manter
o emprego. Nas campanhas salariais deste ano, o foco dos sindicatos já é
recuperar o poder de compra dos salários.

Bancários e metalúrgicos que trabalham em montadoras, categorias com forte poder
de mobilização, já conquistaram de 1,5% a 3% de aumento real, além de abonos
salariais de R$ 1.500 a
R$ 2.800 e participação nos lucros e resultados.

Essas negociações abrem espaço para que outras categorias negociem aumentos
reais que variam de 5% a 10% --caso dos químicos, gráficos, trabalhadores do
setor de alimentação e dos petroleiros. Para os trabalhadores, as empresas
voltaram a produzir --e a faturar-- neste ano e têm condições de arcar com
maiores reajustes.

"Os efeitos da crise foram brandos no Brasil. As indústrias retomaram a
produção, e as lojas, as vendas. Sempre que tem retomada da economia o quinhão
dos trabalhadores tem de aparecer. Se o mercado interno está forte e aquecido,
é possível criar melhores empregos e salários", afirma Vagner Freitas,
secretário de administração e finanças da CUT.

No primeiro semestre deste ano, 93% dos 245 acordos coletivos analisados pelo
Dieese tiveram reajustes iguais ou acima da inflação (INPC). No mesmo período
do ano passado, o percentual foi de 87%.

A tendência neste semestre é que os reajustes se mantenham acima da inflação.
"Quem negociou no primeiro semestre negociou em plena crise e, mesmo
assim, obteve bons resultados. Neste semestre, as categorias negociam em um
cenário melhor. A perspectiva é que o país cresça entre 4% e 5% e já houve
melhora no emprego e na produção, especialmente no caso de setores que
receberam incentivos fiscais e subsídios do BNDES", afirma José Silvestre
de Oliveira, coordenador de relações sindicais do Dieese.

Os aumentos reais de salários também estão mais robustos porque a inflação está
em queda. "Fica bem mais fácil para o empresário dar ganho real de salário
com inflação anual entre 4% e 4,5% do que próxima de 7%. A inflação é peça
fundamental nas negociações salariais", diz Fábio Romão, economista da LCA
Consultores.

Para o advogado trabalhista Luis Carlos Moro, os sindicatos tiveram de assumir
uma posição mais "ofensiva" após constatarem que a crise não atingiu
o país na proporção esperada. "As empresas se preparam para demissões,
suspensão de contratos de trabalho e arrocho salarial. Quando o lucro de várias
companhias foi divulgado e se constatou que chegava à casa de bilhões de reais,
os sindicatos reagiram e retomaram a bandeira do aumento real."

Em setores que ainda não reagiram, como o têxtil, as discussões salariais serão
mais difíceis. Trabalhadores do setor têxtil de São Paulo pedem aumento real de
5%, mais a correção da inflação. "Não vai chegar nem perto disso. Em 2008,
demos 0,8% de aumento real, que já foi maior do que podíamos", afirma
Rafael Cervone, presidente do Sinditêxtil, sindicato da indústria têxtil.

Os químicos de São Paulo já preparam paralisações para conseguir negociar
aumento salarial. "O faturamento do setor cresceu, em média, 7% nos
últimos dez anos. Se negociamos medidas no início do ano para evitar a
demissão, agora as empresas se recuperaram e têm condições de nos
atender", diz Sergio Luiz Leite, presidente da Fequimfar (federação dos
químicos), que representa 100 mil trabalhadores no Estado.

"Como a economia vai crescer até o final do ano, se não houver aumento
real de salário, haverá um festival de greves", diz Paulo Pereira da
Silva, presidente da Força Sindical.